24 fevereiro 2018

O malandro que queria ser rei

F. Ponce de León

Malandro é o sujeito que toma rasteira e se acha o maioral.

*

Era uma vez um malandro. Tinha ele uma prima, irmã e esposa. Perdeu as três.

Primeiro, um gringo de olhos puxados levou a prima. Depois, apareceu um sujeito de óculos escuros e camisa da seleção e levou a irmã. Por fim, um terceiro gringo veio e lhe tomou a esposa.

“E agora, o que eu digo no boteco?”

Na primeira vez, ele disse que a prima se arranjou. Na segunda, ele disse que a irmã encontrou um otário e desencalhou. Na terceira, ele riu e disse que foi ele quem se deu bem, pois se livrou da bruaca.

O malandro é o rei do pedaço. Adora futebol, mas não deixa de acompanhar o telecatch, no sábado à noite, e a corrida de baratinhas, no domingo de manhã.

Não gosta de ler. Diante da TV ligada, porém, revela uma grande frustração: gostaria de ter um diploma de juiz. Hoje, seria o rei de Alienópolis ou de Bananalândia.

21 fevereiro 2018

Once more! Our God, vouchsafe to Shine

Samuel Sewall

Once more! Our God, vouchsafe to Shine:
Tame Thou the Rigour of our Clime.
Make haste with thy Impartial Light,
And terminate this long dark Night.

Let the transplanted English Vine
Spread further still: still call in Thine:
Prune it with Skill: for yield it can
More Fruit to Thee the Husbandman.

Give the poor Indians Eyes to see
The Light of Life: and set them free;
That they Religion may profess,
Denying all Ungodliness.

From hard’ned Jews the Vail remove;
Let them their Martyr’d Jesus love;
And Homage unto Him afford,
Because He is their Rightfull Lord.

So false Religion shall decay,
And Darkness fly before bright Day:
So Men shall God in Christ adore;
And worship Idols vain, no more.

So Asia, and Africa,
Europa with America;
All Four, in Consort join’d, shall Sing
New Songs of Praise to Christ our King.

Fonte (versos 1-4, 9-10, 19-20): Gould, S. J. 1997. Dinossauro no palheiro. SP, Companhia das Letras. Poema datado de 1701.

19 fevereiro 2018

O bobo da corte


Jan [Alojzy] Matejko (1838-1893). Stańczyk. 1862.

Fonte da foto: Wikipedia.

17 fevereiro 2018

Fossilização

Josué Camargo Mendes

Entende-se por fossilização o conjunto de processos graças aos quais se conservam restos ou vestígios de animais ou plantas.

A fossilização só se realiza sob determinadas condições de ambiente. Sendo propícias as condições, até organismos delicados como as medusas podem deixar a sua forma impressa nas rochas. O soterramento rápido deve ter sido fator essencial, em quase todos os casos, devido à proteção imediata que oferece aos restos. As condições mais favoráveis à fossilização encontram-se, em geral, nos fundos dos mares ou de lagos. Muitos organismos, entretanto, são sepultados em cinzas vulcânicas, em depósitos calcários de grutas ou, ainda, em resina ou solos congelados. A presença de bactérias é sempre fator adverso, pois concorrem para a rápida decomposição dos restos orgânicos. Os animais necrófagos contribuem, também, para a pronta destruição dos restos orgânicos.
[...]

Fontes: Mendes, J. C. 1977. Paleontologia geral. RJ, LTC & Edusp.

15 fevereiro 2018

To Mrs. Unwin

William Cowper

Mary! I want a lyre with other strings,
   Such aid from Heaven as some have feign’d they drew,
   An eloquence scarce given to mortals, new
And undebased by praise of meaner things,
That, ere through age or woe I shed my wings,
   I may record thy worth with honour due,
   In verse as musical as thou art true,
And that immortalizes whom it sings.
But thou hast little need. There is a book
   By seraphs writ with beams of heavenly light,
On which the eyes of God not rarely look,
   A chronicle of actions just and bright;

There all thy deeds, my faithful Mary, shine,
And, since thou own’st that praise, I spare thee mine.

Fonte (versos 9-13): Carpeaux, O. M. 2011. História da literatura ocidental, vol. 2. Brasília, Senado Federal. Poema publicado em livro em 1803.

13 fevereiro 2018

A pérola

Clodoaldo de Alencar

Na montra azul do mar, sobre o lençol de argila,
que a tintura do lodo há milênios encarde,
– desde que nasce a aurora e morre, em sangue, a tarde,
sob a equórea pressão a pérola cintila.

A onda, espúmea e revel, que ora avança e vacila,
no evasivo correr de alva Ninfa em alarde
e em cujos ombros nus o ouro dos astros arde,
não lhe rouba, sequer, a postura tranquila.

O estojo em que ela fulge o homem-do-mar presume
e, num mergulho audaz, vai procurá-la em torno
às rosas de coral dos jardins sem perfume.

Depois, rompendo o leque a mil sargaços, boia,
trá-la, fá-la viver presa a colo alvo e morno:
– joia fina a pompear no engaste de outra joia.

Fonte: Horta, A. B. 2016. Do que é feito o poeta. Brasília, Thesaurus. Poema publicado em livro em 1961.

12 fevereiro 2018

Onze anos e quatro meses no ar

F. Ponce de León

Nesta segunda-feira, 12/2, o Poesia contra a guerra completa 11 anos e quatro meses no ar.

Desde o balanço anterior – ‘Cento e trinta e cinco meses no ar’ – foram publicados aqui pela primeira vez textos dos seguintes autores: Artur Gonçalves Ferreira, Cyro Armando Catta Preta, Humberto Werneck, Isaías Pessotti, Lino Guedes, Ransom Riggs e Samuel Wilberforce. Além de alguns outros que já haviam sido publicados em meses anteriores.

Cabe ainda registrar a publicação de imagens de obras dos seguintes pintores: Adolph von Menzel e Thomas William Roberts.

10 fevereiro 2018

Formação de uma nuvem de tempestade

Artur Gonçalves Ferreira

O aquecimento diferenciado da superfície terrestre é o principal mecanismo de desenvolvimento das tempestades. Como as áreas da superfície terrestre são aquecidas com diferentes gradientes térmicos nos baixos níveis, o fluxo do ar cria as zonas de convergência de massa (áreas onde os ventos de diferentes direções se encontram) e, portanto, movimento ascendente. É ao longo dessas zonas de convergência que as trovoadas tendem a se formar e desenvolver.

As nuvens de tempestade (cbs) crescem quando a atmosfera se encontra suficientemente instável em razão do aquecimento da superfície ou de outro mecanismo atmosférico. Na atmosfera instável, o ar aquecido em contato com a superfície sobe. A formação da nuvem de tempestade inicia-se quando esse ar aquecido se expande e começa a condensar. Eventualmente o ar é resfriado até o seu ponto de orvalho e alcança a saturação, formando nuvens cúmulos. Se a atmosfera está muito instável, os cúmulos continuarão a se desenvolver na vertical, até virarem cúmulos-nimbos. Um típico cúmulo-nimbo no estágio maduro pode alcançar, em seu topo, uma altura de 15 km (45.000 pés) ou mais. Como essa nuvem cresce muito, seu topo pode esparramar-se devido ao efeito combinado de ventos nos diversos níveis. Isso dá à nuvem um topo parecido com uma bigorna, que é uma das principais características de uma cb.

Dentro do cb, o ar circula na vertical e na horizontal. O ar quente e úmido sobe, criando fortes correntes ascendentes. Quando o ar sobe, ele é resfriando, causando a condensação e, subsequentemente, as gotas de água crescem e caem como precipitação, causando fortes correntes descendentes. Na superfície, esse ar descendente gera uma pequena área de alta pressão, conhecida como mesoalta, responsável por indicações erradas nos altímetros das aeronaves nos momentos de pouso e decolagem.
[...]

Fonte: Ferreira, A. G. 2006. Meteorologia prática. SP, Oficina de Textos.

08 fevereiro 2018

Sobre a origem das espécies: resenha crítica

Samuel Wilberforce

O sr. Darwin escreve como cristão e não duvidamos de que o seja. Não acreditamos, por um momento, que seja daqueles que retêm num canto do coração uma descrença secreta que não ousam declarar; rogamos-lhe, portanto, que considere bem as bases nas quais marcamos sua hipótese com a acusação de tal tendência. Ele, em primeiro lugar, não declara obscuramente que aplica seu esquema da ação do princípio da seleção natural ao Homem assim como aos animais que o rodeiam. Ora, devemos dizer imediatamente, e abertamente, que tal noção é inteiramente incompatível não só com expressões únicas na palavra de Deus naquele assunto da ciência natural no qual não está imediatamente interessado, mas, o que em nossa opinião é muito mais importante, com a inteira representação daquela condição moral e espiritual do homem que é seu assunto apropriado. A supremacia derivada do homem sobre a terra; o poder de fala articulada do homem; o dom da razão que o homem possui; [o livre arbítrio] e a responsabilidade do homem; a queda e a redenção do homem; a encarnação do Filho Eterno; o abrigo do Espírito Eterno – tudo isso é igual e completamente irreconciliável com a ideia degradante da origem bruta do que foi criado à imagem de Deus e redimido pelo Filho Eterno reclamando para si sua natureza. Também inconsistente – não com expressões passageiras, mas com o esquema total das relações de Deus com o homem, como foi registrado por Sua palavra – é a ideia ousada do sr. Darwin sobre o maior desenvolvimento do homem até a uma extensão desconhecida de poderes, forma e tamanho através da seleção natural agindo na longa vista das idades que ele coloca confusamente sobre a terra nos indivíduos mais favorecidos de sua espécie. Não queremos estender o assunto nestas páginas. Já fizemos o bastante com o propósito de indicar, sucintamente, seu curso. [...]

Fonte: Hardin, G., org. 1967. População,evolução & controle da natalidade. SP, Nacional & Edusp. O trecho integra um artigo publicado originalmente em 1860.

06 fevereiro 2018

Permanência da poesia

Emílio Moura

Quando a luz desaparecer de todo,
mergulharei em mim mesmo e te procurarei lá dentro.

A beleza é eterna.
A poesia é eterna.
A liberdade é eterna.
Elas subsistem, apesar de tudo.

É inútil assassinar crianças. É inútil atirar aos cães os que,
de repente, se rebelam e erguem a cabeça olímpica.
A beleza é eterna. A poesia é eterna. A liberdade é eterna.
Podem exilar a poesia: exilada, ainda será mais límpida.

As horas passam, os homens caem,
a poesia fica.

Aproxima-te e escuta.
Há uma voz na noite!

Olha:
É uma luz na noite!

Fonte (quarta estrofe): Cunha, C. 1976. Gramática do português contemporâneo, 6ª edição. BH, Editora Bernardo Álvares.

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