18 outubro 2017

Noite

Cecília Meireles

Tão perto!
Tão longe!
Por onde
é o deserto?
Às vezes,
responde,
de perto,
de longe.
Mas depois
se esconde.
Somos um
ou dois?
Às vezes,
nenhum.
E em seguida,
tantos!
Avida
transborda
por todos
os cantos.
Acorda
com modos
de puro
esplendor.
Procuro
meu rumo:
horizonte
escuro:
um muro
em redor.
Em treva
me sumo.
Para onde
me leva?

Pergunto a Deus se estou viva,
se estou sonhando ou acordada.
Lábio de Deus! – Sensitiva
tocada.

Fonte (versos 35 e 36): Cunha, C. 1976. Gramática do português contemporâneo, 6ª edição. BH, Editora Bernardo Álvares. Poema publicado em livro em 1945.

16 outubro 2017

Equações lineares

David C. Lay

Era o final do verão de 1949, Wassily Leontief, professor de Harvard, estava cuidadosamente inserindo o último cartão perfurado no computador Mark II da universidade. Os cartões continham informações sobre a economia americana e representavam um resumo de mais de 250.000 itens produzidos pelo Departamento de Estatística do Trabalho dos EUA após dois anos de trabalho intenso. Leontief dividiu a economia americana em 500 ‘setores’, como indústria de carvão, indústria automobilística, comunicações e assim por diante. Para cada setor, ele escreveu uma equação linear que descrevia como o setor distribuía sua produção com respeito aos outros setores da economia. Como o Mark II, um dos maiores computadores de sua época, não podia lidar com o sistema resultante de 500 equações e 500 incógnitas, Leontief precisou resumir o problema em um sistema de 42 equações e 42 incógnitas.

A programação do computador Mark II para resolver as 42 equações de Leontief levou vários meses de trabalho, e Leontief estava ansioso para ver quanto tempo o computador levaria para resolver o problema. O Mark II roncou e piscou durante 56 horas até que finalmente produziu uma solução. [...]

Leontief, que ganhou o Prêmio Nobel de Economia de 1973, abriu a porta para uma nova era da modelagem matemática na economia. Seus esforços de 1949 em Harvard marcaram uma das primeiras aplicações científicas do computador na análise do que era então um modelo matemático de grande escala. Desde essa época, pesquisadores de muitas outras áreas têm usado os computadores para analisar modelos matemáticos. Por causa da enorme quantidade de dados envolvidos, os modelos são geralmente lineares, isto é, são descritos por sistemas de equações lineares.

A importância da álgebra linear nas aplicações tem crescido de modo diretamente proporcional ao crescimento do poder computacional, onde cada nova geração de hardware e software detona uma demanda para capacidades ainda maiores. Assim, a ciência da computação está fortemente ligada à álgebra linear através do crescimento explosivo de processamento paralelo e de computação em grande escala.
[...]

Fonte: Lay, D. C. 1999. Álgebra linear e suas aplicações, 2ª ed. RJ, LTC.

14 outubro 2017

Moinho


Heinrich Vogeler (1872-1942). Mühle im Teufelsmoor. 1905.

Fonte da foto: Wikipedia.

13 outubro 2017

Aniversário de 11 anos

F. Ponce de León

Ontem, 12/10, o Poesia contra a guerra completou 11 anos (2006-2017).

Nos últimos 12 meses, foram ao ar textos de 109 novos autores, além de outros que já haviam sido publicados antes – ver ‘Aniversário de 10 anos’ e balanços anteriores. Eis a lista de estreantes:

Alexandre F. B. Araújo, Ana Luiza Coelho Netto, Anacreonte, Andrea Wulf, Andrew C. Campbell, Anísio Godinho, Anna North, Anthony Crawforth, Antonio Salatino, Arthur Jensen & Arthur Rubinstein;

Benício de Barros Neto, Bertold Brecht & Bill McKibben;

Charles A. Triplehorn, Charles Lamb, Chris Rorres & Conceição Evaristo;

Dava Sobel;

Eduardo Mora-Anda, Erik Erikson, Ernst Mayr & Euro Arantes;

Fernando Reinach, Francisco Aboitiz, Francisco Carlos Teixeira da Silva & François Chapeville;

Geni Guimarães, Giacomo Leopardi, Glaucia N. M. Hajj, Gonçalo Eanes do Vinhal, Gordana Đurić & Guy de Almeida;

H. Moysés Nussenzveig, Harold Hart Crane, Horacio E. Cingolani, Howard Anton & Hugh D. Young;

Ieda S. Scarminio & Isabel Maria Loureiro;

J. C. Dalponte, J. W. Anderson, Jean Lacroix, João Bosco dos Santos, João Soares Coelho, Johannes Brahms, John Donne, John L. Harper, Jorge Faleiros, José Carlos Ometto, Juan Montiel & Juca Chaves;

Karla Chediak;

Laís V. Ramalho, Lewis Thomas, Louis Levine, Ludwig Trepl & Luiz Gama;

Magno A. P. Ramalho, Malthus de Paula, Manuel Machado, Marcia D. Lowe, Margaret Mead, Mari Evans, Maria Andréia de Paula Silva, Maria José O. Zimmermann, Marià Manent, Maria Yedda Linhares, Marilene H. Lopes, Marlise Becker, Mary Agnes Hamilton, Mary Catherine Bateson, Maurice E. Solomon, Miguel de Cours Magalhães & Murillo Araújo;

Nancy Leys Stepan, Norman F. Jonnson, Norman Metzger & Nikki Giovanni;

Oliver Wendell Holmes, Oliveira Silveira & Otto R. Gottlieb;

Paulino de Oliveira & Paulo Leonel Libardi;

Rajeev Balasubramanyam, Rebecca Stefoff, Rhoda Métraux, Robert L. Usinger, Robert T. Orr, Roger A. Freedman, Rogério Cezar de Cerqueira Leite, Rolf F. Hoekstra, Romeu Jobim, Ronald A. Fisher & Roy E. Bruns;

Samuel P. Huntington, Sânzio de Azevedo, Sengai Gibon, Simón Bolívar, Simon Schwartzman, Solano Trindade & Stephen C. Stearns;

Tracy I. Storer;

Verônica de Novaes e Silva; e

W. H. Auden, Walter de Paula Lima, Walter Scott, William Coleman & William Paley.

Cabe ainda registrar a publicação de imagens de obras dos seguintes 27 pintores: Albert Gleizes, Andreas Achenbach & Asher Brown Durand; Dora Carrington; Edward Wadsworth & Elizabeth Adela Forbes; Fernand Léger & Frederic Edwin Church; George Clausen & Granville Redmond; Henri Le Fauconnier & Henry Tonks; Jean Metzinger, Jean-Paul Laurens & Juan Gris; Léon-François Comerre & Louis Gurlitt; Mark Gertler; Noel Ford; Perugino & Pierre-Narcisse Guérin; Sassoferrato & Stanhope Forbes; Thomas Moran & Tony Robert-Fleury; Vittore Carpaccio; e William Keith.

10 outubro 2017

Lagartos brasileiros

Verônica de Novaes e Silva & Alexandre F. B. Araújo

Os lagartos constituem um dos grupos mais ricos e diversificados de répteis. A riqueza do grupo e a extensão geográfica de sua área de distribuição nos Neotrópicos são bastante expressivas. Só no Brasil, já foram registradas mais de 220 espécies de lagartos, abrangendo um total de dez famílias diferentes. Cinco dessas famílias (Iguanidae, Hoplocercidae, Tropiduridae, Polychrotidae e Leiosauridae) pertencem ao grupo Iguania, enquanto as outras cinco (Teiidae, Gymnophthalmidae, Scincidae, Gekkonidae e Anguidae) pertencem ao grupo Scleroglossa, que também inclui as serpentes e as anfisbenas. Juntos, os grupos Iguania e Scleroglossa formam a ordem Squamata, reunindo assim serpentes, lagartos e anfisbenas.

Apesar de toda essa riqueza, há um acentuado grau de desinformação sobre a relevância biológica dos lagartos, o que tem gerado pouco ou nenhum interesse pela proteção desses animais. Espécies endêmicas (e.g., Cnemidophorus parecis e Liolaemus lutzae) de regiões sujeitas a processos de modificações aceleradas, como o cerrado e o litoral do Sudeste, correm sério risco de desaparecer [...]. Para organismos tão pouco carismáticos como os lagartos, em torno dos quais proliferam preconceitos e noções distorcidas, a situação torna-se particularmente crítica e preocupante.

Nos centros urbanos, por exemplo, o fato de apenas uma pequena parcela do elevado número de espécies brasileiras de lagartos ser facilmente avistada, frequentemente em locais pouco ou nada atraentes, como banheiros (lagartixas, Hemidactylus mabouia), terrenos baldios (calangos-verdes, Ameiva ameiva) e bueiros (calangos, Tropidurus torquatus), leva o cidadão comum a detratar fortemente todo o grupo. Em locais menos urbanizados, onde é possível encontrar um maior número de espécies, é comum ouvir relatos de moradores nos quais os lagartos assumem características e atitudes suspeitas e potencialmente perigosas aos seres humanos, evidenciando um acentuado preconceito cultural. Uma senhora informou que existem lagartixas na Amazônia que chupam o sangue das pessoas, enfraquecendo-as e causando anemias. O relato foi feito com convicção irrefutável e exemplificado por vários ‘casos’. Uma família baiana não repelia e até se alimentava de calangos-verdes (Ameiva ameiva), mas os meninos do local ficavam especialmente assustados ao avistar o animal, comentando sobre o perigo de ser mordido por aqueles “dentes enormes”. Em uma fazenda goiana, um bicho-preguiça (o camaleão Polychrus acutirostris) escalava uma trepadeira, enquanto os meninos que o observavam ficaram amedrontados ao ver aquele animal “perigosíssimo”, “que tinha o hábito de grudar nas pessoas e só se soltar com o barulho de um trovão ou de um avião passando”.
[...]

Fonte: Silva, V. N. & Araújo, A. F. B. 2008. Ecologia dos lagartos brasileiros. RJ, Technical Books.

08 outubro 2017

Pégaso cansado

Romeu Jobim

Coração, ginete árdego
de cavalgadas mil,
era esporear-te e sôfrego
a paragens e mundos
longínquos me levares.

Nunca, indormido pégaso,
um voo me negaste.           

Estouvado centauro,
cansei-te. E hoje não voas
nem corres.

Mas refaze-te
e acorda, companheiro
de aventuras!

Com tua
ajuda é que ainda espero
chegar àquela estrela!                

Eia, vamos, desperta!

Fonte: Horta, A. B. 2016. Do que é feito o poeta. Brasília, Thesaurus. Poema publicado em livro em 2003.

06 outubro 2017

Matí

Marià Manent

Ets eixida del son com del mar. Tota humida,
somriu encar la boca als somnis, dolçament.
Brilla el sol a les herbes, però tu veus l’argent
     de la lluna, entre l’aigua adormida.

Una llum de maragda mig emboira els teus ulls;
té perfums d’aquell mar ta delicada argilla;
i dus una gran perla pàllida sota els rulls,
     ondulats com una alga tranquilla.

Fonte: Pinto, J. N. 2002. Solos do silêncio, 2ª ed. SP, Geração Editorial.

04 outubro 2017

Sistemas agroflorestais

Walter de Paula Lima

Sistema agroflorestal pode ser definido como uma modalidade de uso integrado da terra para fins de produção florestal, agrícola e pecuária. Como tal, pode ser entendido como um sistema moderno e bastante adequado de se alcançar uma produção florestal social e ecologicamente mais equilibrada [...].

Sob o termo geral de sistemas agroflorestais, vários subsistemas ou práticas agroflorestais podem ser estabelecidos. O aspecto principal em todos eles é a presença deliberada do componente florestal para fins de produção, de proteção ou visando ambas as coisas simultaneamente. [...]

Em comparação com os sistemas convencionais de uso da terra, a agrossilvicultura tem principalmente o objetivo de permitir maior diversidade e sustentabilidade. Do ponto de vista ecológico, a coexistência de mais de uma espécie numa mesma área pode ser justificada em termos da ecologia de comunidades: desde que as duas espécies ocupem nichos diferentes, de tal forma que seja mínimo o nível de interferência, então as duas espécies podem coexistir [...]. O menor nível de perturbação do sítio normalmente associado aos sistemas agroflorestais, a condição de proteção mais adequada pelas copas das árvores, além de outros, são fatores que conduzem a uma melhor utilização da água e dos nutrientes em tais sistemas. Na agrossilvicultura, a ciclagem de nutrientes tende a ser mais rápida e os nutrientes que seriam normalmente perdidos num sistema convencional de monocultura são, normalmente, mais bem aproveitados pelas culturas intercaladas. Ainda, pode também haver um efeito neutralizante entre uma espécie de demanda alta de nutrientes, em contrapartida à capacidade maior de enriquecimento orgânico do solo apresentado pela outra espécie consorciada [...].

Fonte: Lima, W. P. 1996. Impacto ambiental do eucalipto, 2ª ed. SP, Edusp.

02 outubro 2017

Queda d’água norueguesa


Louis Gurlitt (1812-1897). Norsk vandfald. 1835.

Fonte da foto: Wikipedia.

30 setembro 2017

Pressupostos científicos de uma ideia política

Ludwig Trepl

Não constitui uma evidência que, antes das ‘intervenções’ no ‘meio ambiente’ ‘natural’, se deva estudar o ‘impacto’ dessas ações. Isto não só porque se pode achar que isso é desnecessário (por exemplo, porque o meio ambiente seria muito mais resistente do que acredita uma opinião pública demasiadamente susceptível), mas também porque o conceito de meio ambiente é ambíguo e, além disso, não é evidente por si só que ‘haja’ realmente um meio ambiente.

O que hoje denominamos meio ambiente não existia há duzentos anos e nem mesmo há 25 anos, exceto nos discursos dos especialistas. Não havia ‘destruição do meio ambiente’, embora já existisse sem dúvida quase tudo o que entendemos por essa expressão. Certamente, nos séculos passados ocorreram ‘catástrofes ambientais’ que superavam em muito o que hoje se designa por esse nome (embora talvez não o que hoje representa a ameaça). Nenhuma das catástrofes atuais atinge as proporções das epidemias de peste da Idade Média ou as dimensões daquilo que se seguiu à conquista da América Central e do Sul pelos espanhóis, quando, no período de uma única geração, o número de habitantes desceu a uma fração. Essa síndrome de causas, hoje chamá-la-íamos sem dúvida de ‘ecológica’, falaríamos de uma ‘guerra ambiental’ e de uma ‘catástrofe ambiental’. Mas, naquela época, não poderia surgir a ideia de que o ‘meio ambiente’ é que estaria entrando ‘em colapso’. Tratava-se apenas de consequências da guerra, fome, secas, epidemias, problemas de higiene etc.
[...]

Fonte: Trepl, L. 1994. In: Müller-Plantenberg, C. & Ab’Sáber, A. N., orgs. Previsão de impactos. SP, Edusp.

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