19 abril 2018

Calipso


George Hitchcock (1850-1913). Calypso. 1906.

Fonte da foto: Wikipedia.

17 abril 2018

Dos ilustres assassinos

Cecília Meireles

Ó grandes oportunistas,
sobre o papel debruçados,
que calculais mundo e vida
em contos, doblas, cruzados,
que traçais vastas rubricas
e sinais entrelaçados,
com altas penas esguias
embebidas em pecados!

Ó personagens solenes
que arrastais os apelidos
como pavões auriverdes
seus rutilantes vestidos,
– todo esse poder que tendes
confunde os vossos sentidos:
a glória, que amais, é desses
que por vós são perseguidos.

Levantai-vos dessas mesas,
saí de vossas molduras,
vede que masmorras negras,
que fortalezas seguras,
que duro peso de algemas,
que profundas sepulturas
nascidas de vossas penas,
de vossas assinaturas!

Considerai no mistério
dos humanos desatinos,
e no polo sempre incerto
dos homens e dos destinos!
Por sentenças, por decretos,
pareceríeis divinos:
e hoje sois, no tempo eterno,
como ilustres assassinos.

Ó soberbos titulares,
tão desdenhosos e altivos!
Por fictícia austeridade,
vãs razões, falsos motivos,
inutilmente matastes:
– vossos mortos são mais vivos;
e, sobre vós, de longe, abrem
grandes olhos pensativos.

Fonte: Bosi, A. 2013. História concisa da literatura brasileira, 49ª ed. SP, Cultrix. Poema corresponde ao Romance LXXXI do Romanceiro da Inconfidência (1945).

15 abril 2018

Invictus

William Ernest Henley

To R. T. H. B.

Out of the night that covers me,
   Black as the pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
   For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
   I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
   My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
   Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
   Finds and shall find me unafraid.

It matters not how strait the gate,
   How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
   I am the captain of my soul.

Fonte (versos 15-16): Carpeaux, O. M. 2011. História da literatura ocidental, vol. 4. Brasília, Senado Federal. Poema – originalmente sem título – publicado em livro em 1888.

13 abril 2018

Proclamação decadente

Medeiros e Albuquerque

A Olavo Bilac

(Carta escrita por um poeta
a 20 de Floreal,
sendo Verlaine profeta
e Mallarmé – deus real.)

Poetas,
      são tempos malditos
os tempos em que vivemos...
Em vez de estrofes, há gritos
de desalentos supremos.

Se algum d’entre vós, cantando
nos banquetes ergue a taça,
sente, convulsa, pesando
a mão fria da Desgraça!

O Sorriso é tredo aborto
de algum soluço contido,
à beira dos lábios morto,
pelo Escárnio repelido.

E o Pranto – se o Pranto ardente
banha uma face sombria –
vem do excesso do pungente
riso mordaz de Ironia.

Que resta? Todas as crenças...
todas as crenças morreram!
Ficaram sombras imensas,
onde lumes esplenderam...

Que resta? A Dúvida horrível
os sonhos todos crestou-nos...
A Natureza impassível
só conta invernos e outonos.

Se, pois, na Glória inda crerdes,
há de enganar-vos a Glória!
Murcham-se os louros mais verdes
na folhas éreas da História...

Os Poetas do Sentimento,
que pintam a sua idade,
vão morrer do Esquecimento
na profunda soledade.

E neste tempo em que o Homem
se altera e diferencia,
breves, os cantos se somem
na indiferença sombria.

Pode a Música somente
do Verso nas finas teias
conservar no tom fluente
tênue fantasma de ideias;

porque é preciso que todos
no vago dessa moldura
sintam os estos mais doudos
da emoção sincera e pura;

creiam achar no que apenas
é tom incerto e indeciso
dos seus sorrisos e penas
o anseio exato e preciso.

Que importa a Ideia, contanto
que vibre a Forma sonora,
se da Harmonia do canto
vaga alusão se evapora?

*

Poetas,
      eu sei que, sorrindo,
zombam de nós os descrentes.
– Deixai! Ao pé deste infindo
ruir de Ilusões ardentes,

nós, entre os cantos sagrados,
que só tu, Poesia! animas,
passaremos embuçados
em áureos ramos de rimas.

Fonte: Horta, A. B. 2007. Criadores de mantras. Brasília, Thesaurus. Poema publicado em livro em 1899.

12 abril 2018

Onze anos e meio no ar

F. Ponce de León

Nesta quarta-feira, 12/4, o Poesia contra a guerra completa 11 anos e meio no ar.

Desde o balanço anterior – ‘Onze anos e cinco meses no ar’ – foram publicados aqui pela primeira vez textos dos seguintes autores: Cuti, José Jeronymo Rivera, M. Mitchell Waldrop, Michel Serres, René Char e São Mateus. Além de alguns outros que já haviam sido publicados em meses anteriores.

Cabe ainda registrar a publicação de imagens de obras dos seguintes pintores: Chaïm Soutine, Bruno Liljefors e Fujishima Takeji.

10 abril 2018

Boi esfolado


Chaïm Soutine (1893-1943). Bœuf écorché. 1925.

Fonte da foto: Wikipedia.

08 abril 2018

Leia, Lula, leia


Uma das poucas coisas que sempre me incomodaram nas falas do ex-presidente Lula é a sua aparente aversão à leitura.

Estaria ele apenas fazendo tipo ou é para valer? Não sei ao certo.

O que sei é que nunca é tarde para alguém se apaixonar, seja pela leitura, seja pela escrita. Os exemplos de Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas (1889-1985), a Cora Coralina, e de Carolina Maria de Jesus (1914-1977) são bem conhecidos e não me deixam mentir.

A partir deste sábado (7/4), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se tornou o preso político n. 1 do país – seguramente o preso político mais conhecido em todo o mundo, às vésperas de se tornar candidato ao Nobel da Paz.

Ao que parece, a cela a ser ocupada por ele, nas dependências da PF de Curitiba, é um cubículo ultrajante e vulnerável, bem diferente da tal ‘sala especial’ que a assessoria da polícia e a mídia estiveram a divulgar [1].

Sugestões iniciais

Seja como for, presidente, vai aqui uma primeira sugestão: caso a cela destinada ao sr. tenha TV, frigobar e chuveiro elétrico, peça aos responsáveis para que eles removam ou desliguem a TV e o chuveiro. Livre-se dessas coisas. Evite a programação tóxica que a maioria das emissoras de TV coloca no ar. E banhos de água quente só lhe fariam mal – em caso de dúvida, converse com o seu médico sobre isso.

Barganhe a saída dessas coisas por livros... Mas não qualquer livro. Evite ler por mero entretenimento. Leia coisas que alimentarão sua mente e seu espírito. Cuide do corpo, mas, nesses dias de provação, leia coisas que façam a sua cabeça ‘borbulhar’, como uma jovem leitora me disse, dias atrás.

Pensando nisso, e com base na biblioteca de um sem-teto que conheço, tomei a iniciativa de preparar uma primeira lista com cinco sugestões. Ai vão elas...

Primeira sugestão: Em defesa de um matemático (Martins Fontes 2000 [1967]), de G. H. Hardy, em tradução de Luís Carlos Borges. Não se deixe assustar pelas poucas expressões numéricas presentes na obra. O ensaio de Hardy, relativamente curto, é antecedido por uma introdução, ocupando a primeira metade do volume e que é assinada pelo escritor inglês C. [Charles] P. [Percy] Snow (1905-1980). Esqueça os britânicos malandros e vis, tipo Winston Churchill (1874-1965) [2]. Trata-se de um livro escrito por um cavalheiro inglês, a ser lido agora por um cavalheiro brasileiro.

Segunda: História natural dos ricos (Zahar, 2004), de Richard Conniff, em tradução de Lúcia Ribeiro da Silva. O sr. certamente já leu, folheou ou ouviu falar de obras como A história da riqueza do homem (1936), de Leo Huberman, e As veias abertas da América Latina (1971), de Eduardo Galeano. Pois o livro de Conniff aborda mais ou menos a mesma questão, só que de um ponto de vista comportamental; neste sentido, formaria uma pequena tríade com aqueles dois.

Terceira: O dilema do onívoro (Intrínseca, 2007), de Michael Pollan, em tradução de Cláudio Figueiredo. Sei que gosta (ou gostava) de churrasco. Aliás, uma de suas imagens em família mais icônicas, durante os anos à frente do Executivo, talvez tenha sido aquela foto na praia, com uma caixa de isopor sobre a cabeça e seguido de perto por d. Marisa. A proposta do livro não é discutir a dieta em termos nutricionais – vegana, vegetariana ou onívora? –, mas chamar a atenção para a origem dos alimentos que consumimos, defendendo a ideia de que devemos valorizar a produção local.

Quarta: A vida no limite (Zahar, 2002), de Frances Ashcroft, em tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. Por que o sr. sentiu frio quando esteve na Antártida? E por que aquela sensação de falta de ar na altitude de La Paz? Por que é mais fácil alguém morrer de sede do que de fome? E o que os sertanejos – a custo zero ou quase isso – poderiam fazer para melhorar a sensação de bem-estar no interior da casa deles?

Quinta... Pensando bem, as quatro acima já devem lhe ocupar durante a primeira semana. É melhor então eu deixar a quinta para depois.

Uma derradeira sugestão: não deixe de ter sempre ao lado um caderno onde possa fazer anotações sobre o que está lendo. (E sempre date as suas anotações.)

Por ora, era isso.

Saudações & inté.

Notas

[1] Ver matéria ‘Lula ficará numa tranca em Curitiba, quase uma solitária, e não no que Moro chamou de Sala de Estado Maior’, de Kiko Nogueira, publicada pelo DCM, em 7/4/2018.
[2] Ver matéria ‘Winston Churchill accused of genocide by Indian politician’, de Joshua Robertson, publicada pelo The Guardian, em 4/9/2017.

[Nota adicional: para conhecer outros artigos e livros do autor, ver aqui.]

06 abril 2018

O poema, a marchinha, o inferno

F. Ponce de León

A vida e a obra de um líder popular como Lula dão um grande poema, daqueles que são lidos décadas, séculos ou milênios depois de escritos.

A vida e a obra desse juiz de Curitiba dão uma marchinha esperta, daquelas que tocam na rádio durante o Carnaval, enquanto a agência dos Correios é assaltada.

Olhar para trás e descobrir que a sua vida tem sido movida não pelo amor ao que faz, mas sim pelo ódio ao que o outro está fazendo, é de uma tristeza imensa. (O juiz, claro, não é o único ser humano a viver assim.)

Veja a turma dos endinheirados, a maioria dos quais vive tão somente a amealhar e a pilhar. Nada fazem pela coletividade. Nada deixam atrás de si, exceto talvez a tardia sensação de alívio que brota naqueles que sobreviveram ao pisoteio. (O que o falecido criador da Rede Globo deixou atrás de si? Filhos e instituições a se aproveitar ou a burlar a lei? E o criador do SBT, o que tem feito pela sua cidade ou pelo seu país? A herança dele será diferente?)

E o que dizer então da classe média brasileira, avara com os empregados e os mais próximos, mas que gasta o que pode e o que não pode durante as férias na Disney, sempre com os olhos vidrados nos endinheirados, pensando consigo mesma – “Um dia eu chego lá!” Chega aonde, José? Ao inferno?

04 abril 2018

A esmola, a oração e o jejum devem ser acompanhados de intenção reta

São Mateus

1Guardai-vos de fazer as vossas boas obras diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles, doutra sorte não sereis remunerados pelo vosso Pai, que está nos céus. 2Quando, pois, dás esmola, não faças tocar a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem honrados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa. [...]

5E, quando orais, não haveis de ser como os hipócritas, os quais gostam de orar em pé nas sinagogas e nos cantos da praças, a fim de serem vistos pelos homens; em verdade vos digo que (já) receberam a sua recompensa. [...]

16E, quando jejuais, não queirais fazer-vos tristes como os hipócritas; porque eles desfiguram os seus rostos, para mostrar aos homens que jejuam. Na verdade vos digo que (já) receberam a sua recompensa. 17Mas tu, quando jejuas, unge a tua cabeça e lava o teu rosto, 18a fim de que não pareças aos homens que jejuas, mas a teu Pai, que está presente ao (que há de mais) secreto, e teu Pai, que vê o secreto, te dará a recompensa.

Fonte: Bíblia Sagrada, 21ª edição (Paulinas, 1965, Mt 6, 1-18), tradução de Pe. Matos Soares.

02 abril 2018

La liberté

René Char

Elle est venue par cette ligne blanche pouvant tout aussi bien signifier l’issue de l’aube que le bougeoir du crépuscule.
Elle passa les grèves machinales; elle passa les cimes éventrées.
Prenaient fin la renonciation à visage de lâche, la sainteté du mensonge, l’alcool du bourreau.
Son verbe ne fut pas un aveugle bélier mais la toile où s’inscrivit mon souffle.
D’un pas à ne se mal guider que derrière l’absence, elle est venue, cygne sur la blessure, par cette ligne blanche.

Fonte: Pinto, J. N. 2002. Solos do silêncio, 2ª ed. SP, Geração Editorial. Poema publicado em livro em 1945.

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