16 novembro 2017

Madalena penitente


Luca [Fapresto] Giordano (1634 -1705). Maddalena penitente. 1660-5.

Fonte da foto: Wikipedia.

14 novembro 2017

Escolhos

Márcio Catunda

Solidão nas latitudes,
que tristeza nos meus olhos!
No céu, as cores são rudes,
no coração – os escolhos!

Faz silêncio no oriente,
que abismo no mar de Deus!
Entre névoas o ocidente
escurece os sonhos meus.

Que destino estranho a mim
anoitece-me as lembranças?
Se o meu tormento tem fim,
quando terei esperanças?

E quanto mais me angustio,
mais a minha alma se agita,
mais lento segue o navio
da minha longa desdita...

Fonte: Horta, A. B. 2016. Do que é feito o poeta. Brasília, Thesaurus. Poema publicado em livro em 1991.

13 novembro 2017

Onze anos e um mês no ar

F. Ponce de León

Ontem, 12/10, o Poesia contra a guerra completou onze anos e um mês no ar.

Desde o balanço anterior – Aniversário de 11 anos – foram publicados aqui pela primeira vez textos dos seguintes autores: Ademar Ribeiro Romeiro, David C. Lay, Émile Verhaeren, João Garcia de Guilhade e Lucille Clifton. Além de alguns outros que já haviam sido publicados em meses anteriores.

Cabe ainda registrar a publicação de imagens de obras dos seguintes pintores: Adelsteen Normann, Eugen Dücker e Heinrich Vogeler.

06 novembro 2017

Josaphat

Da Costa e Silva

A trombeta fatal os meus ouvidos chumba.
Sol Poente. Eu moribundo. Entra o cortejo roxo
Da Morte. O Padre meu irmão parece um mocho...
Rezas, viático, a Cruz – passaportes da Tumba.

Choro de minha mãe – arrulhos de columba
Meus olhos a ninar... Fecho-os ao claror frouxo
Do círio bento e vejo, aos pulos, Satã Coxo,
Em roda do meu leito, à espera que eu sucumba.

Deixa o corpo a alma e desce em espirais de tênia
Aos círculos do Inferno, à maneira de um dobre
De sinos, aos giros no ar... Dante faz-me uma nênia,

Voltaire, a assobiar, traça-me o necrológio,
Rezam juntos por mim num profano Eucológio.

Fonte: Horta, A. B. 2007. Criadores de mantras. Brasília, Thesaurus. Poema publicado em livro em 1908.

04 novembro 2017

Maré vasa


Expulsos do governo da cidade,
Descalços, pela noite, vimos todos
Restituir-Te, à flor dos nossos lodos,
A dádiva suprema da verdade.

Nós, o amor, ou antes: a pureza.
Nós, a virtude, ou antes: o sorriso.
Expulsos do terreno paraíso
E com a carne, para sempre, acesa.

E não foi mais que sonho o nosso crime!
E não foi mais que sopro o nosso abraço!
Mas todos Te seguimos, passo a passo,
À espera do remorso que redime...

Expiação de quê? De que pecados,
Se demos rumo eterno a tantas vidas?

Ó capitão das tropas esquecidas
Que, assim, deixas morrer os teus soldados!

Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema publicado em livro em 1961.

02 novembro 2017

Fiorde de Romsdal


Adelsteen Normann (1848-1918). Romsdalsfjorden. 1875.

Fonte da foto: Wikipedia.

31 outubro 2017

Sistemas agrários

Ademar Ribeiro Romeiro

A passagem da produção agrícola baseada em sistemas de cultura itinerante para uma produção baseada em sistemas de cultura permanente na Europa do Norte foi objeto de vivas controvérsias. Uma das mais importantes opunha, de um lado, aqueles que viam a expansão demográfica como a variável independente na evolução dos sistemas agrários; de outro lado, aqueles para os quais a força motriz principal do processo de mudança era a introdução do progresso técnico, independentemente da expansão demográfica.

Os partidários da primeira corrente partem do que consideram um fato: a produtividade tanto da terra quanto do trabalho nos sistemas de cultura itinerante era superior àquela obtida com os sistemas de cultura permanente que lhes sucedem. Tratar-se-ia, portanto, da passagem paradoxal de um sistema superior para um sistema inferior. Efetivamente, a pressão demográfica parece ser a única força capaz de obrigar os agricultores a trabalhar mais para obter menos. Segundo Boserup (1970), a pressão demográfica obriga os agricultores a trabalhar cada vez mais porque esta é a única maneira de aumentar a produção quando não há outros recursos que aqueles disponíveis no espaço agrário. Somente a partir da revolução industrial, quando a indústria passa a fornecer à agricultura fontes exógenas de energia e outros insumos, é que se torna possível aumentar simultaneamente o rendimento da terra e a produtividade do trabalho agrícola.

A segunda corrente abriga autores para os quais a evolução dos sistemas agrários até a revolução industrial não foi, como supõe Boserup (1970), uma sucessão de sistemas com produtividade do trabalho decrescente. Para autores neomalthusianos, como Grigg (1974), os sistemas agrários evoluem devido à introdução autônoma de inovações tecnológicas, um processo que seria inerente à curiosidade e capacidade inventiva do homem. Essas inovações, por sua vez, elevam a produção de alimentos per capita, o que tenderia a acelerar o crescimento demográfico. Assim a pressão demográfica seria o resultado e não a causa da evolução dos sistemas agrários.
[...]

Fonte: Romeiro, A. R. 1998. Meio ambiente e dinâmica de inovações na agricultura. SP, Annablume & Fapesp.

29 outubro 2017

Cólera do mar

Augusto de Lima

Disse o rochedo ao mar, que plácido dormia:
“Quantos milênios há que, tu, negro elefante,
tragas covardemente esses, cuja ousadia
se arriscou em teu dorso enorme e flutuante?”

O mar não respondeu; mas um tufão horrendo
cavou-lhe a entranha e fez estremecer de medo
o coração do abismo. Então o mar se erguendo,
atirou um navio aos dentes do rochedo!

Fonte: Nejar, C. 2011. História da literatura brasileira. SP, Leya. Poema – com a dedicatória ‘A Assis Brasil’ – publicado em livro em 1887.

27 outubro 2017

Par Deus, infanzon, queredes perder

João Garcia de Guilhade

   Par Deus, infanzon, queredes perder
a terra, pois non temedes el rei;
ca ja britades seu degred’, e sei
que lh’o faremos mui cedo saber;
ca vus mandaron a capa, de pran,
trager do[u]s anos, e provar vus an
que vo’-la viron tres anos trager.

   E provar-vus-á das carnes quenquer
que duas carnes vus mandan comer
e non queredes vos d’ũa cozer;
e no degredo non á ja mester
nen ja da capa non ei a falar,
ca ben tres anos a vimos andar
no vosso col’ e de vossa molher.

   E fará el rei côrte este mes
e mandaran-vus, infanzon, chamar
e vos querredes a capa levar
e provar-na-vus, pero que vus pes,
da vossa capa e (do) vosso guardacos
en cas del rei vus provaremos nos
que an tres anos e passam por tres.

Fonte: Vasconcelos, C. M. 2004 [1904]. Glosas marginais ao cancioneiro medieval português de Carolina Michaëlis de Vasconcelos. Coimbra, Acta Universitatis Conimbrigensis. Cantiga de escárnio e maldizer datada da segunda metade do século 13.

25 outubro 2017

Slaveships

Lucille Clifton

loaded like spoons
into the belly of Jesus
where we lay for weeks         for months
in the sweat and stink
of our own breathing
Jesus
why do you not protect us
chained to the heart of the Angel
where the prayers we never tell
and hot and red
as our bloody ankles
Jesus
Angel
can these be men
who vomit us out from ships
called Jesus      Angel      Grace of God
onto a heathen country
Jesus
Angel
ever again
can this tongue speak
can these bones walk
Grace of God
can this sin live

Fonte (versos 1-11): Pereira, E. A., org. 2010. Um tigre na floresta de signos. BH, Maza Edições. Poema publicado em livro em 1996.

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