22 janeiro 2018

A música da morte


Já passaram por nós as frias aves,
aprendemos a música da morte.
Ao princípio escurece, um arrepio
vem toldar a memória sobre a pele
e a sombra que deixámos faz-se leve
diferença como eco ou na paisagem
turvo matiz que inquieta de repente:
tudo o que irá esquecer nossa passagem
nos vem olhar agora frente a frente.
Da morte aqui passaram frias aves,
como nuvens sem mar ou mar sem naves.

Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema publicado em livro em 1998.

20 janeiro 2018

Movimento muscular e comportamento

Isaías Pessotti

Fica claro, mesmo à primeira vista, quanto a história da explicação do movimento muscular deve à fisiologia de Galeno, que contribuiu imensamente para o desenvolvimento da análise experimental das atividades reflexas, ao menos até o aparecimento, neste campo, de Willis, Borelli, Baglivi e Bellini. Mais do que a outros fatores, deve-se à sua base experimental a solidez das formulações de Galeno (131-200 dC).

Em anatomia e fisiologia a sua posição é contrária à de Aristóteles. Galeno não se deixou guiar nas suas pesquisas por necessidades lógicas de um sistema filosófico, mas sim pela observação sistemática e controlada, o que foi possível graças à introdução e utilização intensiva da técnica da vivissecção. Sourry (1899) diz que Galeno sacrificou “hecatombes de mamíferos” durante suas pesquisas.
[...]

Fonte: Pessotti, I. In: Prado Júnior, B., org. 1982. Filosofia e comportamento. SP, Brasiliense.

17 janeiro 2018

Buscapé arisco

Cyro Armando Catta Preta

Buscapé arisco...
rasteja... estala... flameja...
espalha rabiscos...

Fonte: edição de outubro-dezembro de 2008 da revista Ciência & Cultura. Haicai publicado em livro em 2002.

15 janeiro 2018

Três gerações atrás: “Olá, sr. Darwin!”

Felipe A. P. L. Costa

Quantas gerações de sua família seriam necessárias para retrocedermos até a época do naturalista britânico Charles Darwin (1809-1882)?

Não sabe ou não lembra? Pois então pesquise e faça as contas. Pode ser uma oportunidade de colocar a história recente de sua família em perspectiva.

No que segue, apresento a minha resposta. Antes, porém, dois esclarecimentos. Conheci as minhas avós, mas não conheci os meus avós, nem o paterno nem o materno. Também devo dizer que não tive acesso às certidões de nascimento ou falecimento de nenhum dos quatro. Embora escreva com base em lembranças da história familiar, tenho motivos para acreditar que três deles poderiam ter convivido com Darwin. Vejamos.

Lado materno. Minha avó faleceu em 1966, aos 79 anos. Feitas as contas, constatamos que ela jamais poderia ter convivido com Darwin, pelo simples motivo de ter nascido após a morte dele. O marido dela, meu avô, faleceu em 1940, com cerca de 60 anos. Tendo nascido poucos anos antes de 1882, ele bem poderia ter engatinhado na presença de Darwin.

Lado paterno. A minha avó faleceu em 1975 e sua idade, na época, era assunto controverso. As estimativas variavam de ‘noventa e tanto’ a ‘cento e pouco’ – digamos, entre 97 e 103 anos. A incerteza era por conta de uma adulteração: na época do seu casamento, o que ela fez (ou foi levada a fazer) muito precocemente, sua idade foi inflacionada. No entanto, mesmo adotando a estimativa mais baixa, ela teria nascido alguns anos antes de 1882 e, assim, bem poderia ter dito olá para o sr. Darwin. O meu avô, cujo destino final sempre foi um mistério (ele saiu de casa um dia e não voltou), era bem mais velho que minha avó, o que significa dizer que ele nasceu vários anos antes de 1882. Meu avô, portanto, bem poderia ter conversado com Darwin.

Concluindo, e respondendo à pergunta do primeiro parágrafo: no meu caso, para dizer olá ao sr. Darwin, seria necessário retroceder apenas três gerações – a minha (1959), a dos meus pais (1909 e 1919) e a dos meus avós.

[Nota: Alfred Russel Wallace, o coautor da teoria da evolução por seleção natural, era bem mais novo (nasceu em 1823) e faleceu bem depois (1913) de Darwin. ARW é um dos 14 personagens principais do livro O evolucionista voador & outros inventores da biologia moderna (2017).]

13 janeiro 2018

Meditação ante um poema antigo

Pablo Antonio Cuadra

Perguntou a flor: o aroma
acaso me sobreviverá?

Perguntou a lua: alguma
luz guardo depois de morrer?

Mas o homem disse: por que acabo
e fica entre vós o meu canto?

Fonte: Bandeira, M. 2007. Estrela da vida inteira. RJ, Nova Fronteira.

12 janeiro 2018

Cento e trinta e cinco meses no ar

F. Ponce de León

Nesta sexta-feira, 12/1, o Poesia contra a guerra completou 11 anos e três meses no ar.

Desde o balanço anterior – ‘Onze anos e dois meses no ar’ – foram publicados aqui pela primeira vez textos dos seguintes autores: Arthur Rimbaud, Douglas C. Montgomery, George C. Runger, Henriques do Cerro Azul, Jacob Gorender, João Rubens Zinsly, Judith Wright, Luis de Góngora e Pavol Országh Hviezdoslav. Além de alguns outros que já haviam sido publicados em meses anteriores.

Cabe ainda registrar a publicação de imagens de obras dos seguintes pintores: Arthur Streeton, Félix Buhot e Francesco Squarcione.

10 janeiro 2018

Desliza o riacho


Arthur Streeton (1867-1943). Still glides the stream, and shall for ever glide. 1890.

Fonte da foto: Wikipedia.

09 janeiro 2018

Análise dos resíduos

Douglas C. Montgomery & George C. Runger

Os resíduos de um modelo de regressão são ei = yii, i = 1, 2, ..., n, em que yi é uma observação real e i é o valor ajustado correspondente, proveniente do modelo de regressão. A análise dos resíduos é frequentemente útil na verificação da suposição de que os erros sejam distribuídos de forma aproximadamente normal, com variância constante, assim como na determinação da utilidade dos termos adicionais no modelo.

Como uma verificação aproximada da normalidade, o experimentalista pode construir um histograma de frequência dos resíduos ou um gráfico de probabilidade normal dos resíduos. Muitos programas computacionais produzirão um gráfico de probabilidade normal dos resíduos e, uma vez que os tamanhos das amostras na regressão são frequentemente muito pequenos para um histograma ser significativo, o método de plotar a probabilidade normal é preferido. É necessário julgamento para assegurar a anormalidade de tais gráficos. [...]

Fonte: Montgomery, D. C. & Runger, G. C. 2009. Estatística aplicada e probabilidade para engenheiros, 4ª ed. RJ, LTC.

07 janeiro 2018

Revolução ou golpe de estado?

Jacob Gorender

Na linguagem política, os golpes de estado constituem movimentos de minorias, geralmente conspirativas, que, na maioria dos casos, pretendem mudanças na orientação governamental. Às vezes, os golpes de estado podem ser motivados por objetivos algo mais avançados, tais como certas modernizações da estrutura social existente. Apesar da memória latino-americana negativa, os golpes de estados não são necessariamente reacionários.

As revoluções são movimentos de classes sociais, que desencadeiam a ação aberta de grandes massas dessas classes, com o objetivo de transformações estruturais de caráter radical. Seus efeitos transformadores se fazem sentir de imediato nas esferas das relações de produção, do caráter do estado e do direito e, com maior ou menor rapidez, em todo o âmbito da ideologia.
[...]

Fonte: Gorender, J. 1994. A Revolução de Outubro: revolução ou golpe de estado? In: O. Coggiola, org. Trotsky hoje. SP, Ensaio.

05 janeiro 2018

The forest

Judith Wright

My search is further.
There’s still to name and know
beyond the flowers I gather
that one that does not wither –
the truth from which they grow.

Fonte: Dwyer, P. D. 1986. In: Kikkawa, J. & Anderson, D. J., eds. Community ecology. Oxford, Blackwell. Publicado em livro em 1962.

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